Friday, December 21, 2007

O Tormento de Deus


Deus disse: "Se tal vos repugna,
não acrediteis em mim,
mas ficaria feliz
se encontrásseis algum encanto
num ou noutro ser da minha lavra:
o búzio, onde dorme a música,
o plátano, que cresce para lá das estrelas,
o mar, que diz cem vezes: "Eu sou o mar."

Sinto-me muito humilde:
o meu universo não é mais belo
do que um poema perdido."


Alain Bosquet, in "O Tormento de Deus" , 1987

Friday, November 30, 2007

Campo de Trigo Com Corvos de Silas Correa Leite

Campo de Trigo Com Corvos, Contos, o Livro do Silas Corrêa Leite

A ciência é grosseira, a vida é sutil
É para corrigir essa distância
Que a literatura nos importa

(Roland Barthes)


“CAMPO DE TRIGO COM CORVOS”, Contos, o que realmente é? Primeiro: é um livro de contos, ficções, histórias, causos, narrativas e as chamadas acontecências, todas no belíssimo palco histórico e boêmio de Itararé. Segundo: a maioria dos contos premiados em concursos literários de renome, ou mesmo no próprio Mapa Cultural Paulista, representando Itararé. Terceiro: a prosa poética do autor, sua linguagem típica do “Itarareês” com o peculiar e todo próprio surrealismo e mesmo o realismo fantástico, para não dizer de, aqui e ali, um chamado transrealismo. E, o melhor de tudo: papo de bar. Na calada da memória, as bebemorações (ou rememorações) e um piá...o guri Silas contando, como se trazendo a sua infância consigo na linguagem, nos parágrafos. Para não dizer dos finais hilários ou, ponhamos: encantados. Bela capa, com autorização do Museu Van Gogh da Holanda. Orelhas bem trabalhadas. O autor tem o que se dizer dele. Prefácio arrebatador. De um poeta, ficcionista e ensaísta premiado de Portugal, o Prof. Dr. Antero Barbosa, acadêmico e professor universitário. Descasca literalmente o estilo do Silas, técnicas, vôos, criações, enlevos, símbolos de perplexidade. E valoradamente dá nomes elogiosos aos criames diferenciados do autor. Última capa, as citações de lugares midiáticos em que o Silas saiu, foi reportagem, ou entrevistado, da Folha à Jovem Pan, por exemplo. Depois e finalmente, o conto Anistia. Premiado. O macro espaço-Brasil trazido à Itararé e um menino contando. Da ditadura ao fim dela com a Era Collor e suas carroças coloridas. O muro como símbolo, metáfora. Lembra J.J.Veiga mas vai em veio próprio. Guardação. Um baita causo de Itararé. Bem construído, costurado, com um final pra lá de feliz e risador, ridente, sei lá. Boêmio...um continho joiado...lindo. Mimo. Caso de notívago. Câncer... então é um papo rueiro, de bar risca-faca, de roda de contadores de palha. O Anão é tão bonito que pinta virar filme, pelo que soube. Gente de arte (teatro, rádio, música) em Itararé de olho. Mágico. Justiça, então, tem um final altamente criativo, quase um achado fora de série. Escrever é um ato de sobrevivência, disse Eduardo Subirates (filósofo espanhol). O Apanhador de Cerejas, quando revela o que está realmente havendo (narrador direto), você sofre e chora e volta a reler para compreender a dor do narrador. A pior coisa é não sentir absolutamente nada, diz o rock do U2. Campo de Trigo Com Corvos é o melhor conto do livro. E o final se revela na última palavra. Você vai lendo, seguindo na contação do menino, quando se vê? Corvos, trigais, campos e, loucura-lucidez. Azul e amarelo, como a capa. O Inventor é cênico, fílmico, e um final que arrebata, literalmente. Endoenças é conversa de filha pra pai. Tudo em Itararé, chão e estrelas. E lágrimas. Congonha (ko goy – do tupi: o quê mantém o ser?), o conto mais premiado do autor. Como é que pode um final desses? Depois vem o Causo do Gibão e você tem ali uma graceza impressionante, andando com o autor pela narrativa e sua tessitura. O Enterro, então, é o melhor “causo” do livro. Por si só daria já um romance e tanto. Um pandareco, como volta e meia diz o autor, entre maleixo, cainho, guaiú, morfético, caipora lazarento (beirando um regionalismo sulino até), etc. Quando você pensa que já está bom, a mimese do O Osso. De novo você fica pensando: como pode escrever isso? Onde acha isso tudo? Técnica, estilo, domínio, condução, talento. Coió é triste, duro, o conto mais pungente do livro maravilhoso. O causo O Velho Martinho é bem contado em Itararé, o autor recupera pessoas, falas, expressões, dando registro à voz do povo, vox dei. E bota gente real: Tepa, Jorge Chuéri, lugares, bares (principalmente). Quando a Tragédia Bate à Sua Porta, foi elogiado e considerado belo e fílmico quando em debate online, pelo João Silvério Trevisaan. E O Silas Já foi premiado no Concurso Ignácio Loyola Brandão, Paulo Leminsky, Ligia Fagundes Telles, Salão de Causos de Pescadores da USP, etc. e tal. Então o conto de amor que faz você chorar. Ele Ainda Está Esperando. Um final que relembra kafka mas sem deixar de enlevar a leitura em prosa poética e ficar pensando no estupendo processo de criação com suas lógicas e ilogicidades maviosas, plangentes. Quando você pensa que acabou, um continho quase que meio infanto-juvenil, e o menino de novo que, na maioria das obras narra, conta, detalha, especifica, volta inteiro e completo com o conto sobre a bicicleta de um tio. Marquesinha, Periquitada. Você não leu? Não sabe o que está perdendo. Cada um arrasta um corpo atrás de si, debaixo do sossego das estrelas, disse Fernando Pessoa. Isso tudo e muito mais é CAMPO DE TRIGO COM CORVOS. Jóia rara.
-0-
L.C.A – Professora, Área de Designer Gráfico -E-mail: artistasdeitarare@bol.com.br
Blogue: www.artistasdeitarare.zip.net

Autor: Silas Correa Leite - E-mail: poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas.htm

Thursday, November 29, 2007

Poema do Conhecimento

Poema do Conhecimento do Ser - Conhecemos o amigo, quando precisamos dele. Conhecemos o parente, quando choramos. Conhecemos um profissional, quando há um desafio. Conhecemos um professor, quando a classe é problemática. Conhecemos um médico, na hora da operação delicada. Conhecemos o craque, na hora de virar o jogo. Conhecemos o poeta, na hora dele tirar leite de pedras. Conhecemos o inimigo, quando ele é leal na peleja. Conhecemos o vencedor, quando ele não tripudia sobre o derrotado. Conhecemos o anjo íntimo, quando a cruz que carregamos perde peso e tem uma leveza de nuvem numinosa. Conhecemos o chefe, não quando precisamos dele, mas quando ele elogia em público e critica reservadamente. Conhecemos a estrada quando ele oferece sol para o nosso olhar de descoberta de novos horizontes. Conhecemos o sábio quando ele é humilde, e o herói quando ele se revela eterno aprendiz de significados e lutas. Conhecemos o livro quando ele se revela em nós, com a nossa alma e mente feito uma página aberta. Conhecemos o céu quando sentimos a morte rondar, apesar de tanta gente querer ver Deus sem querer morrer... Conhecemos a arte quando ela nos toca o sensorial. Conhecemos a dor quando ela nos lapida na peregrinação. Conhecemos o bem da perda quando somos sacudidos para reagirmos em nossa comodidade e decadência. Conhecemos a fé quando estamos perdidos. Conhecemos a paz quando estamos no front e medimos vitórias e perdas. Conhecemos a oração quando ela nos salva de nós mesmos. Conhecemos o inferno quando queremos ser o que não somos. Conhecemos o infinito quando somos misericordiosos com os fracos e oprimidos. Conhecemos o santo quando o reconhecemos em amor e caridade. Conhecemos o espírito quando nos descobrimos finitos no espectro da carne. Por fim, conhecemos a luz quando estamos na luz.
Silas Correa Leite – Educador, Jornalista, Poetawww.portas-lapsos.zip.net

Wednesday, November 21, 2007

Vista a Minha Pele - Poema Para 20 de Novembro

Poema Para 20 de Novembro

Vista a Minha Pele

Dia da Consciência Negra
Dia da consciência branca
Dia da consciência pesada

Silas Corrêa Leite


Vista a minha pele
Você conseguiria?
Seja negro só por um dia
Seja preto por mim
Somando todas as minhas cores assim

Vista a minha pele
Sinta a minha cor
Seja você quem for
Capture a minha dor
Lá dentro de mim
E procure me compreender melhor assim

Vista a minha pele
Eu sou igual a você
Ser humano porque
Corpo, Mente, Coração
Então, por que racismo e discriminação?

Vista a minha pele
Sou vermelho por dentro
E negro sempre cem por cento
Afrodescendente
Além de para sempre
Inteiramente ser humano e sobretudo gente

Vista a minha pele
Vista-se de mim
E procure me entender seu igual assim
Seu irmão da maravilhosa e cósmica raça
E então veja tudo o que dentro de mim se passa

Assim você confere
Assim você vai se sentir
Dentro da minha pele
Como eu quero ser árvore e florir
Como eu quero ser janela e me abrir
Como eu quero ser estrada e prosseguir
Que eu quero ser estrela e sorrir
Sem ninguém para me ferir
E você vai captar então
A pureza do essencial
O que eu quero é total libertação
E todos iguais na coloração
Numa democracia racial

Vista a minha pele
Seja um pouco eu mesmo por aí
Dentro de você - para você sentir
Sou preto brasileirinho
Sou negrão e sou negrinho
Sou negro do seu mesmo valor
E tenho a Mama-África no meu interior

Depois de me vestir e de se sair de si
Deixando de ser eu negão aí
Venha me estender a sua mão
E de coração para coração
Abrace-me como um seu completo irmão
Pois a nossa pele espiritual será uma só então
Numa sagrada celebração.

-0-

Silas Corrêa Leite, de Itararé-SP, Poeta, Educador, Coordenador de Pesquisas da FAPESP-USP-Culturas Juvenis – Autor de “Porta-Lapsos”, Poemas, e “Campo de Trigo Com Corvos” Contos, Editora Design
EMEF José Alcântara Machado Filho, Real Parque, AR-BT, São Paulo-SP
Endereço eletrônico: poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas.htm
Texto da Série: Afrobrasilis – “Amalgamados - Dos Filhos Deste Solo”
(Silas Corrêa Leite, inédito)

Saturday, April 14, 2007

Resenha Crítica

Resenha Crítica:

Livro “Contos da Cavalgada” de Gustavo Ferreira Correa

Dizer a última palavra, mesmo sem despedir-me

Thereza Christina Rocque da Mota


Quando tenho em mãos um novo livro para ler, fico contente pela perspectiva de um novo enlevo literário, até porque, em tese, estaremos entrando na alma-água do autor/criador, com as suas pontuações íntimas, suas pontes letrais, suas correntezas que, até, no muito além de si ramificam para uma janela da vida (uma janela para o alto), abrindo, portanto, páginas de rosto com o tempero da paleta silencial a descrever rumos e prosopopéias. Quando recebo o livro de um conterrâneo de Itararé, minha terra-mãe, fico ainda mais alumbrado, sondando o devir naquela obra de estréia de uma nova andorinha sem breque, a botar para fora causos e acontecências, falas típicas e construções, e aí fico me preparando para a doce emoção do forfé que é ler com contenteza e prazeirança nativa, por assim dizer. Fanático por Itararé é isso. E Itararé tem dessas coisas mesmo: produz e consome cultura própria. De pinturas e marchas-rancho de carnaval, de poemas a baladas rueiras, de pedagogos a juristas, de ficções a histórias que o povo conta, de romances a memórias e muito humor no atacado. E quem conta causo de dia ganha rabo de cotia, diz a crendice popular. Com o livro “Contos da Cavalgada” do Professor e Escritor Gustavo Ferreira Correa não poderia ser diferente. Já pensou? Escrever é sim, dar testemunho, talvez pôr a alma no cuorador das idéias recorrentes, recompor situações e conflitos, mas, antes de tudo, escrever é mostrar um novo olhar sobre a vida, essa dura vida de perdas e ganhos, de ausências e curtumes. Ai as aquarelas da vida, os calvários da vida!. Pois “Contos da Cavalgada” é isso: o pé na terra - caminhaduras e romarias, suas sabenças e alegranças. O autor tomando o leitor pela mão, levando-o a cavalgar tópicos frasais, diálogos, causos dentro da história, por aí: a viagem dentro da obra, o imaginário sensível provocado. Tudo numa narrativa gostosa a fluir fácil, serena, como se você mesmo estivesse ali, de verdade, inteirinho e entregue dentro das contações ao pé do fogo, lustre-luar de Itararé, toldo estrelado do céu jade de nosso rincão amado, beira de rio, entre a bulha da saparia, ouvindo Gustavo Ferreira Correa lastrando-se de mente e cuia e lábia e mãos. E alta criatividade, claro. Gustavo escreve bem e bonito. E com uma simplicidade preciosa, muito bem norteada naturalmente de uma singela pureza essencial. E o essencial é invisível aos olhos, disse o poeta. Há olhos de ver e olhos de sentir. E escrever encerra um mundo no Ser por inteiro. Gustavo deve ser um ótimo professor de literatura. É um ótimo escritor muito além até de sua já notória postura algo zen. Enquanto o leio, leio entrelinhas, e vejo (leio) - sinto-o – depondo, não só num saudosismo-saudade, mas um refazer a vida pelo seu prisma de artista sensível que é. Historiar implica que o criador assuma risco de expor-se, entre idéias, sentimentos, olhares especiais, purgações íntimas, acerca do entorno do próprio projeto-livro. Foi assim com Sócrates, Galileu, Jean-Paul Sarte, Freud, Jorge Luis Borges e outros. A palavra “história” de origem grega quer dizer exatamente “investigação”, “informação”. Com o depuro técnico-narrativo de Gustavo, vê-se aí (lê-se aí) a escrita se apresentando madura, segura de si, lógico-sequencial a costurar elos, entrelaçar o conjunto do livro que diz de contos, mas, romanceia entrecontos. E os causos vão pontuando as partes, seguros, personalizados, hilários às vezes, entre mitos e crendices, interessantes, cativadores. Gustavo conhece do oficio e se acrescenta. Escrever corresponde ao impulso do espírito humano para enlivrar-se, livrando-se de algo que seu ser pontua (e despoja), necessitando de visão social para configurar pari-passu o livro enquanto obra literária de norma culta. Ao escrever e resgatar causos, como um ouvidor de um tempo chamado longe, Gustavo Ferreira Corrêa ilumina as contações; feito um lampião aladim da mágica mão, nas andanças pelo palavreado todo. Os personagens vão se delineando nas amarras construídas com esmero, a estrada da caminhação se abre e filtra paragens, e as mentes acompanham as leituras, quando então vamos juntos com o autor entre os devotos e os fantasmas. Uma precisão embonitada a de retratar como se em sépia os seres reais, histórias que se aglutinam e os desfechos que falam da vida sábia do povo. Contos da Cavalgada é isso: mais um trabalho de quilate para a BRITA-Biblioteca Real de Itararé. E Gustavo pelo jeito não vai ficar só nisso. Sorte nossa. Não é todo dia que se lê a alma pura de um povo interiorano num livro com perfeita sintonia letral. Captar o sentido essencial da prosa, pondo sensibilidade no observar/ouvir. Estilo límpido, cristalino, esse é o estilo de Gustavo. Gustavo escreve como quem “alembra” a vida (alumbra?) na sua pureza mais simples (antiga e verdadeira?); a tez chã dos caminhos, gente errante e maravilhosa na esperança com medos, peregrinações. Alumbramentos. A evocação do passado feito o “trazer-de-volta”, não é apenas o saudosismo, mas uma re-celebração de um “outro tempo”, de um espaço geográfico, de um povo, de um lugar; mítico e primordial, exterior à nossa temporalidade. Isso quer dizer alguma coisa? Itararé é resgatada, a história se recupera, e temos nas mãos o lastro-lavra de uma religiosidade naquilo que recompõe, com reflexos, acentos sociais e humanos, trajetos e perspectivas. O pensamento vê o mundo melhor do que os olhos, disse Bartolomeu Campos de Queirós. É como se Gustavo Correa dissesse para alguém (no tácito que se compreende?) – mistérios, sonhos, aparições; a distância de uma amizade mal amalgamada?) – tipo

“Estou aqui te continuando...estou aqui vivo/E estás vivo em mim...a vida (como ela é, afinal, dura e triste, amarga...) não terminou na tua história...” Continuo-a aqui, nas minhas singelas contações...

Um livro, como páginas de rosto (páginas da vida), levando a gente para cavalgar visões e estrelamentos. Moendas?

Escrever é permanecer em vigília. Sim, irmãos, em vigília por aqueles que nos deixaram...mas, ninguém, nunca, tirará quem amamos para sempre de nós.

Escrever e criar é uma forma de dar testemunho de resistência, sensibilidade e luta. Escrever é dar voz e sentido aos vestígios de ausências. A escrita afaga a alma de quem cria, recriando o próprio mundo interior.

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BOX:
Contos da Cavalgada
Mistérios, Sonhos e Aparições
Edição do Autor/Diagramação e Impressão Tipografia Itararé, Ano 2006
Gustavo Ferreira Corrêa
Professor da Rede Pública de Ensino, Itararé-SP
E-mail do autor: gfcferreira@bol.com.br
www.contosdacavalgada.blogspot.com

Resenha:
Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas.htm
Autor de Porta-Lapsos, Poemas