Friday, October 08, 2010

Poema, Vermes




VERMES


O cientista no trem carregava um pote
De Vermes – para as suas experimentações
Na Estação de Itararé, o pesquisador
Levava inconclusões em seu empirismo

Sondei o homem triste, infeliz, ansioso
E contemplei os Vermes no pote de vidro
Fiquei com pena dos vermes, a irem
Com ele para o seu laboratório de Ser...

Depois fiquei com pena mesmo do homem
Os Vermes certamente melhores do que ele
Um dia o tomariam inteiro para si
E todos seriam vermes, homens, e eles...

Com pena do homem – (ou dos Vermes?)
Quedei-me a meditar todo confuso ali
Que Verme é o homem que mal se cabe em si
A procurar no bisonho o que de si é ver-se

-0-

Silas Correa Leite
Santa Itararé das Artes, SP, Brasil
Site: www.itarare.com.br
E-mail: poesilas@terra.com.br

Friday, June 11, 2010

Os Poemas de Oleg Almeida:Memórias dum Hiperbóreo




Pequena Resenha Crítica

A Portentosa Poética Neohedônica-Tropical de Oleg Almeida, no Diferenciado Livro de Poemas “Memórias dum Hiperbóreo”


“... A ironia é o meu último refugio... ”

Gregório Bacic, in, Olhares Plausíveis




Por todos os Deuses! A poesia de Oleg Almeida tem uma vertente neohedônica-tropical que arrebata. A lira-delirante de um viajoso-peregrino, por terras do além-longe, onde ele se impregna-clarifica de um lirismo-neohedônico que capitula telúrico em terras afro-tupí-davidicas. Será o impossível? Pois é! Hiperbóreo, do título, vem de como os gregos denominavam um povo que segundo eles moravam acima do vento norte. Pois um bielo-russo, o autor, Oleg Almeida comprou o mote e empreendeu viagens feito uma espécie assim muito bem agregada de gregonauta em terras brasilis gerais, tabuleiro-mosaico em que se cantando tudo há.

Memórias-derramas? Devaneios-fugas? Exercícios de libertações? A arte como fuga-tronco? O Parnaso é o lugar que somos-estamos-permanecemos? Que vento varre as hélices da alma quando nos defrontados num descaminho do longe, se não sabemos que lar nos habita e que propriamente lar somos e estamos? Devaneios de sensibilidade. Alimentamo-nos de nossas neuras e as transformamos em versos e pólos rítmicos de versações?

Que Estação Nada é um porto-lei? Remos em ventos: poemas. As aventuras ins/piram versos... Holderlin, o mágico de Hypérion no vestíbulo da prisão em que foi posto e condenado, acusado de loucura, quando exibia o mais alto grau de lucidez: “E no entanto tu brilhas, Sol! Terra sagrada, não cessas de reverdecer, o fluxo das torrentes escorre ainda para o mar, e no calor do meio dia a sombra das folhagens murmura ainda!”. Mares nunca dantes navegados? Por que mares, lares, bares e ares, segue a fluidez louca de Oleg Almeida?. É difícil ancorar um navio no espaço, disse a poeta-suicida Ana Cristina César. Qual é a filosofia vivencial de Oleg Almeida? Aí tem poesia. Ai de tida vida errante!

Poemas-crônicas, poemas-romances, retratos raros, poemas-historiais, poemas quadros cênicos, poemas e a paleta do olhar do criador trans/figurado. Que viagem é dar esqueleto estético a versos que ganham molduras em vidas, cores, tintas e panos, sentidos e consistências, a poética-texto que proseia o mar lusco-fusco entre a poesia propriamente dita e as memórias nem sempre tão doces, mas vertentes verdejantes de um ser como que, enclausurado numa dor lancinante, quando se purga a escrever o derredor delas, antes, depois, e, pior, dentro delas: eis o livro. Para Holderlin, como para os gregos, um Píndaro, por exemplo, a arte é artesania. É o chamado mechané dos poetas antigos que Oleg faz macadames de idéias-poemas, de situações-conflitos-poesia, de narrações-poéticas que criam fundos, ermos, variações, dimensões que a leitura mergulha, bebe, rende harmonia. A poesia é exigência, diz Saint-John Perse. Pois no caso de Oleg Almeida é exigência de contar, narrar, descrever, arrancar, criar-se ainda assim da memória, verter-se, dar o que pensar em seio, berço, eio; e pinturas com magnífico nuance novidadeiro de punho e cunho clássico.

............................................
“Olhai, Senhor, para mim
Com vosso sorriso bondoso e complacente.
Dai-me um pouco de luz olímpica;
Perdoai a vontade insana
De ler o final da historia, antes que seja escrito
DE quebrar, com alarde, a casca de noz sagrada
E comer o miolo
De penetrar o impenetrável”

(in, pg 10, Poema Numeral UM)

Essa é a poética de Oleg Almeida talvez neohedonista. Delirante. Delirante?. Melhor: assustadoramente poética, viajosa, fora do normal – se é que normal quer dizer alguma coisa – sem títulos; numeradas, como páginas de rostos, capítulos de uma mesma epopéia a criar diários, registros, delações, visões, com/figurações. O molusco tirado da concha em bólides e desafios faz-se homem no escreViver... Hiperbóreo...

E trabalha o verso que uni-(verso), o longe, o perto (o dentro), mais, a chaga do tempo, como se quisesse estar onde não está, e quisesse ser o que não pode ser, ou se quisesse escrever-se para refazer-se e incluir naquilo que lhe foi tirado, talvez o vento-tempo: “O tempo nos mata – Não a pauladas(...) mas à sorrelfa/Com rugas, doenças e cartas de despedidas/Pouco a pouco.” O tempo e suas cartas náuticas-poéticas. Navegar/Escrever é preciso, existir não é preciso?

“O azul foi a cor da infância
Do lépido céu que servia de teto(...)
Dos olhos de minha vó
Das histórias por ela contadas(...)
Foi o azul do menino(...)

(pg 21, in Verso V)

Assim é Oleg Almeida. Narrador-contador(cantador) que veste a roupa do que pensa, inventa, sente, e isso dói. Escrever é derrubar paredes? O Poema IX é lindo! Fragmento: “Do dia em que morreste, meu velho(...)/De capa branca, imaculada, e de sandálias pretas/Que nunca usarás em vida/Tu foste embora/Seguindo o caminho que todos os homens igualaria nos seus direitos/O da eternidade.” (pg. 39). Alexandre Dumas, em suas Memórias, dizia que era um menino entendiado, entendiado até as lágrimas. Quando sua mãe o encontrava assim, chorando de tédio, perguntava-lhe: -E por que é que Dumas está chorando? Então o menino de seis anos respondia: -Dumas está chorando porque tem lágrimas.

Os poemas hiperbóreos são as lágrimas hedônicas-tropicais de Oleg Almeida em peregrinação pelo mundo que re-descobre a cada ver-se? Ei-lo exatamente nu e lacrimal in versus: “Cheguei e, no meio do desespero/Vi todas as coisas, que conhecia desde o berço, ilesas/As flores a recamarem o teu sepulcro eram bonitas/O vinho tomado para coibir os prantos, gostoso/A lua recém-nascida, amarela/Mas tu não vivias/Ou tinhas entrado, talvez, nessas coisas/E nelas te radicarás/Virarás crepúsculos, raios e sons/Integrarás a natureza/Em cujas feições delicadas, daí para a frente/As tuas se encarnariam.” Bravo! Quadro cênico de pura poesia, a mortalha cênica de um olhar sensível-dor. As perdas (as ausências) alimentam sensibilidades lírico-meditativas que soçobram entre rumos, remos, resmas, iras e criações desta ordem. Que pátria é a infância? Que poesia é nossa cara-pátria? As caras e as coragens (e as fugas-devaneios) do mundo:

“O mundo de hoje não se parece com nada(...)
Aliás, eu também nada tenho de grego
Tirante meu hedonismo mal-sucedido
E as questões
Quem sou eu? Donde venho? Aonde vou?!
(pg. 67 Verso XV)
........................................................................

Ítalo Calvino dizia: “Entre os valores que gostaria que fossem transferidos para o próximo milênio está principalmente este: o de uma literatura que tome para si o gosto da ordem intelectual e da exatidão, a inteligência da poesia juntamente com a da ciência e da filosofia(...).” Oleg Almeida é um caótico itinerante? Já o dramaturgo e poeta Antonio Miranda diz que toda poesia é impura (...) e instaura-se no caos do qual não pretende se libertar... E sobre o escritor Oleg Almeida, o literato Antonio Miranda se manifesta verdadeiramente profético-poético: “Surpreendente o domínio da língua portuguesa por um poeta eslavo! Degusta as palavras e os sentidos em poesia que lida com a prosa, de forma direta, confessional, sutil mas, ao mesmo tempo, incisiva. Aposto no talento dele.”

Feito um Homero querendo voltar para casa, Oleg Almeida procura o que se pode chamar de seu – entre sangue, suor e criação - de casa (o que se pode chamar de lar?); lar, lugar, estar, ser, origem, raiz, talvez despertencimento - ele mesmo a sua própria casa-lugar/ser, o próprio caminhar (fazer a casa), assim luz e lágrima – e verso. Zeus ajuda quem cedo se aventura? O tempo o que é? Tempo-palhaço (até no circo das idéias poéticas), ladrão de mulher, ladrão de nós mesmos, acima dos ventos, das peregrinações ilusórias, dos ícaros, quando o próprio farol de Alexandria pode ser apenas um ponto de exclamação acima das nuvens-ventos, indicando idas e vidas como lugares nenhuns, o ser feito vinagre na peregrinação como alma-andaluz. O lar divino é aquele em que nos deixamos; lastro e rastro, estrelas e trilhas, ilhas e edições de. Vinho, chocolate, recordação, prazer, status paradisíaco de ser-estar-permanecer-continuar!. Carpe Diem. E Poesia, claro, porque Oleg Almeida, filosófico e lingüístico, feito um novo Odisseu pós-moderno (e pós tudo?) faz a sua própria diferença: aventurar-se. Eis o repertório no verbo VIVER se encantando no umbral de novas ilíadas vivenciais e parnasos boêmios consagrados a Orfeu. Colocando poemas-viagens no poetar as buscas de si mesmo, hiperbóreo. Escrever é compor a solidão de poesia/Para ter companhia? Ah a dura viagem de existir! Não somos todos Ulisses?

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Silas Correa Leite – Escritor, Membro da UBE-União Brasileira de Escritores, Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos

Autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos, a venda no site
www.livrariacultura.com.br

E-mail:
poesilas@terra.com.br

Blogue:
www.portas-lapsos.zip.net




Saturday, May 22, 2010

A Poética de Jorge Elias Neto, em Rascunhos do Absurdo




Os Variados Corpos da Poesia Cor de Carne de Jorge Elias Neto
Rascunhos dos Absurdos da Dicotomia Vida/Morte e Seus Subterrâneos Letrais


“... A literatura é revanche de ordem mental
Contra o caos do mundo” Jorge Luis Borges



-Já recebi livro de aluno universitário, de professor, de jornalista, de profissional liberal, de publicitário e de livre pensador, até um que me assustou, no bom sentido, as páginas de rostos contristados de um juiz de direito, e até mesmo de um professor de medicina, ele mesmo médico e sonhador mexicano, mas, agora, recebi um livro de poemas de um médico cardiologista do Estado do Espírito Santo, o também poeta Dr Jorge Elias Neto. Será o impossível?

-Eu mesmo, poeta por acidente de percurso e exílio de existir, sempre sonhei ser médico. Sendo de origem humilde, pois não é que acabei poeta, trabalhando, por assim dizer, o bisturi da alma. Fiz tantos cursos, li feito um condenado à vida, até que achei, literalmente, um médico que, sim, trabalha o bisturi da alma, o bisturi da dicotomia vida/morte com a qual ele lida, escrevendo a poesia cor de carne; rascunhos de tantas vivências e subterrâneos desse rol de escreViver a vida por trás e por dentro da máscara de oxigênio, tirando a parte carbonária do ser sensível. Sobreviver é ser livro?

-O Poeta Gustavo Felicíssimo, pesquisador, ensaísta, já no prefácio muito bem articulado diz do Poeta Jorge Elias Neto: “Sua obra poética é marcadamente filosófica, metafísica e existencialista (...). Constrói seus poemas tateando o indizível, em busca da ciência de desinventar (...). Trabalhar a idéia da morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem diante dessa locomotiva (a morte – grifo nosso). O homem passa a ser o criador de suas verdades e realidades(...) e se lança na investigação identitária de si mesmo e no descortinar do sentindo da vida (...).

-Jorge Elias Neto é isso: um médico que labuta entre o sangue e a luz, na sua poesia cor de carne põe a razão, porque o coração arrebata estados de ânimos e ele mergulha na ciência de palavrear o ritmo alucinante da vida que tem em mãos; que órbita como se um médico a coagular momentos irados, versos que saltam como vidas sendo paridas do seu lado pensador, sentidor, gravitando entre a própria alma nau e as acontecências do entorno. Em que submerge tentando salvar vidas, mesmo que expondo sua alma ferida, questionadora. Poeta é feito de escamas das quais tenta se livrar, criando... “Na perspectiva da ponte/O pássaro solitário nunca volta” (Solo, in pg. 21). Eis o poema em vôo de libertação/arrebentação(?). Mais:

-“Levem-me as horas
Para os caprichos mundanos!

Já destaquei a etiqueta.

Tomei posse do individuo.

Será que não vêem
No meu antebraço
O carimbo de pago”

(A Prazo, pg 63).

-O escritor que se fez médico sabe que não nascemos prontos. Vamos nos fazendo (refazendo) entre agulhas e clichês - em cada escolha, cada corte, cada parto, cada vida que erramos, cada espectro que enfrentamos; a foice da morte, o rebento da vida, a dicotomia paz/horror, amor/dor, sensibilidade e declínio. Seus poemas mostram o homem moderno condenado a pensar-se. Como poeta assume esse compromisso além da lente, do bisturi e da máscara de oxigênio, numa sensibilidade ilimitada e numa desconfortável sentição do que é a bruta vida errada, do sistema bruto que é a saúde corporativada, barateada, do que é significante e do que gratifica o ser no servir, sentir, além de bulas e receitas, de achar-se acima das aparências e satisfações pessoais. É líquido e químico: viver também dói. Sentir é um retirada de etiquetas das coisas abomináveis com os quais nos defrontamos. Não há pílulas de existir a seco, que nos façam passar em branco os desafios, enfrentações íntimas e nódoas do cardume delicado da existencialização. Jorge Elias Neto rascunha de próprio punho as temperaturas do que mapeia. O DNA da alma não tem enredo do que capitular na criação. A Poesia é exigência; o resto é palavrório” nos diz Pierre Bertaux, in Holderlin, ou “le temps d´un poéte.

-O autor poderia simplesmente recolher-se no seu canto e se aproveitar do cargo, da posição profissional. Mas prefere ainda assim campear rascunhos e dizer-se também gerador de palavras, do fogo das palavras. Tem carapaça mas tem um organismo sensível. O poeta-médico sonha um ninho em que as palavras contenham a morte. “O poeta é um verdadeiro ladrão do fogo", disse Rimbaud. Resistir é fogo.

“Herdei de meu pai/Esse Cristo forjado em miolo de pão” (Cristo de Pão) é um dos melhores poemas do livro (pg 79). A morte permeia a obra, mas não uma morte-fim, mas uma morte continuação de algum modo. Poetar é plantar sonhos entre arames e muros. “Deixarei para as ondas decidirem/Sobre a imortalidade/Do meu nome na areia. (Epitáfio Desejado, in, pg 89). Lidar com a morte é questionar a vida. E questionar a vida é uma espécie de rascunho de morrer de algum modo; feito a canção de Fátima Guedes que proseia e pontua a dor: “Flor-de-ir-embora/É flor que se alimenta/Do que a gente chora”.

-A poesia de Jorge Elias Neto é exatamente isso: flor-e-cultura-de sobreviver. O absurdo de. Muito mais do que rascunhos, são poemas à flor da pele, porque escrever é também uma forma de estar Vivo, muito além dos pólos do vale da sombra da morte para onde toda alma caminha. Mas o autor, sabe sim, com alumbrada visão, transformar sapatos em borboletas...

-Os parênteses de sua existência/resistência doem em nós pelos seus versos que celembram além das lágrimas, as areias do tempo na soleira das idéias. Seu escrever é um testamento moral da sensibilidade guardiã de todas as esperanças. A dor existe, e estamos cercados dela. Mas ainda assim há aroma nos aluviões do seu poetar.

-Bendito seja o poeta que sabe o corte e sabe o ungüento da palavra para sempre, e de novo, e outra vez, e de levantar-se, argüir, continuar, pelos que se foram, pelos que se perderam no caminho, pelos que partiram antes de nós. Escrever pegadas. A crueza das letras respira vida, apesar de todas as perdas. Rascunhos Poéticos do Absurdo é isso. Um livro e tanto. Uma obra respirando a vida no seu fulgor. O universo de Deus deixa poemas suspensos no ar. Escrevê-lo é de quem enxerga além da vida, o píer do barqueiro e sua leva de estrelamentos. Paradas cardíacas não são fins em si mesmos? Escrever poemas clarifica os santos suspensos nas tábuas de esperanças sentidas, frutos de ocupações. De médico e poeta o Jorge Elias Neto tem a iluminura enlivrada.

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Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras/Augusta Sampa

Wednesday, March 03, 2010

Ideias Noturnas, Livro de Contos de Eduardo Sabino

Pequena Resenha Crítica

“Ideias Noturnas - Sobre a Grandeza dos Dias”, Livro de Contos de Eduardo Sabino

“O dia-a-dia não precisa ser extraordinário para
ser interessante. O cotidiano é riquíssimo de assuntos
e acontecências de toda espécie – fora e dentro da gente.
É só ficar com as antenas ligadas – as antenas da
curiosidade dos sentidos e dos sentimentos, de
senso critico, de senso poético, sem
esquecer do importantíssimo e
indispensável senso de humor”

Tatiana Belinsky

Você não consegue ler o livro de Contos “Idéias Noturnas” (Editora Novo Século, SP, 2009, 120 páginas, Série Novos Talentos da Literatura Brasileira) de uma só levada, a um só termo. Você é inesperadamente surpreendido na pegada de lê-lo e saber que tem que respirar a leitura, de alguma forma por si mesmo e de per-si, pontuando-a. Parar. Stop. Voltar a tomar pé e pulso no verbo ler. Reler. Porque cada vez que sondando antevê, “pensa” que é, que sonda o arremedo narrativo do devir, o tema e o andamento, mas tudo o que sentia parecer na verdade não é. Contos incomuns, algo (raros) estranhos, por assim dizer como elogio. Tiram você da lerdeza do ler puro e simples para uma sentição do que lê e admira. Grandeza dos Dias? Dos escritos também.

Os contos de Eduardo Sabino são claramente (literalmente) diferenciados. Escreve com uma boniteza que reveste a surpresa da contação em agradável prazer de leitura. Já ganhador de Concurso, participante de antologias, colaborando com veículos de comunicação, inclusive sites, é também editor da revista eletrônica “Caosletras.blogspot.com”. Nasceu em 1986, e, sendo tão novo e tão bom, denso, contundente que seja, é encanto gratificante sabê-lo e conhecer desenhos da escrita dele nesse novo livro de contos.

Otimamente bem Prefaciado por Rinaldo de Fernandes, que dele aponta com conhecimento de causa: “O protagonista do conto (Purgatório, pg 25) está entre o sonho e a realidade de um cotidiano desbotado(...). A vida eterna não nos resolve a angústia de viver (Eternas Angústias de um Imortal, pg 29)(...). Os contos de Eduardo Sabino, irônicos e intensos, com personagens angustiados, alguns à borda do desespero, não raro flagrados em situação de pobreza(...)”. Pois é, ironias, seres (quase-seres/sub-seres), animais, máscaras, monstros, vírus, loucuras... baratas. Doce Lar? Não há nexo na vida real.

Purgatório é sim, um conto sobre um “ser” urbanóide no entre-subsolo de um elevador; sobe, desce, lamurias, contemplações, martírios; reinando. O ser que incabe em si. Desconexões. Vazios. Impertinências (e um olhar ferino) do escritor retratando o ser de si no que vê, sente, repagina; em páginas de restos até porventura rotos que assim sejam. O olhar aproximando da trajetória alheia. “Todos abençoados porque estão vivos. Abençoados porque morrerão” (pg 31). Santo Deus!

Abismo (pg 33) uma das melhores criações do livro. Linda ficção. O abismo é viver; que é ser feliz, que é (talvez?) a própria estupidez de tentar ser Ser... A retina do escritor reformatando aspectos invisíveis, risíveis, verossímeis... criados, imaginários; resgatados também da rudeza dos dias... Sim, diz Eduardo Sabino, é preciso estar muito próximo para conversar a língua do olhar. (Céu Aberto, pg 49). Um roteador de sombras, como um eu-endereço-de-mim, em mim e no outro. “La Sombra”, belo conto, pg. 53, especifica o norte (mote?), o estilo: “La Sombra, a essas alturas um vulto com olhos amarelos e fiapos de cabelo, sugeriu que poderia haver uma esperança se os outros enxergassem melhor o que achavam tratar de meros contornos desprovidos de luz(...).

Eduardo Sabino joga luzes letrais em contornos que redescobre, pincela, amalgamado capta nuances, enlivra desafetos afins, defeitos de fabricação do humanus. De heróis a anônimos, povoando a criação (O Herói e o Escuro, pg 57) a situações-conflitos, rostos e trevas, ideias verbais (aqui noturnizadas). Seres?. Retratando tristezas que nascem e morrem a cada dia. What a Wonderful World?

Banzo (pg 75) emociona, cala fundo. Dói no literal. O melhor dos trabalhos. E por aí vai, O Inquilino, O Jardim Encantado, e outros tantos do mesmo gabarito. Eduardo Sabino relata aspectos (de condições humanas) entre espectros sub-existenciais até. De se ler com prazer, mais, entrar na alma da contação, satisfazer-se, sendo a leitura de “Idéias Noturnas” um imenso (muito) prazer. É o autor com talento dando voz aos desvalidos, aos tantos instantes-trevas da vida, inclusive a fragmentos de vidas retorcidas. Senti-las é isso. Escrever sobre elas, dando peso e fermento; purgações, coisa de quem está fazendo muito bem o que se propõe. In/purezas no pântano da condição humana? O criador se encontra no(a) self?

Nesses tenebrosos dias em que ando muito triste sozinho, escrevendo na pele do espírito a dor de um momento difícil, nervos frágeis à flor da pele, a leitura circunstancial do livro colocou um (algum) certo sentir novo (e revisitado no íntimo) em mim, como se tudo fosse mesmo só isso, cara pálida, nascer, sobreviver, morrer, no durante contorcer-se com a nossa dor, a dor dos outros, e, ainda assim e por isso mesmo captar a grandeza dos dias. Será o impossível? Tudo a Ser.

Entrar no mundo criacional de Eduardo Sabino é ter a sensação de que se lê uma história que nasceu por si mesma, em si mesma, como referendou Julio Cortazar. E assim Eduardo Sabino acertou em cheio, acertou a mão. É do ramo e muito bem conhece do oficio e da linguagem de. Contos para se ler com o olhar, afinando-se na riqueza de quem sabe dar vazão a querelas talvez corriqueiras que parecem sair da esquina do olhar; de um beiço de vida, num clarear de tardes e pertencimentos de seres que também são a nossa cara, pois a existêncialização não é nem uma herança e nem uma evolução apenas, mas, um certo modo de nos envolvermos com o sentido social-comunitário de nos fazermos em cada natureza de criadores e criaturas, feito espécies assim de “antenas” (parabolizadas) de nosso tempo, registrando tudo, doa a quem doer, custe o que custar. E dói muito mais em nós, sentidores, entre prismas e colchas de retalhos com sabenças sensíveis de foro íntimo. Goethe diz que “qualquer coisa que formos capaz de fazermos ou que sonhamos que somos capazes, devemos começar a fazer, pois a coragem traz consigo gênio, poder e magia”.

“Idéias Noturnas” é a magnitude de tudo isso e um rebite a mais. Sintam-se humanóides. Bem-vindos ao mundo literário de Eduardo Sabino e suas fragrâncias de dias cheio de ideias literariamente clarificadas.
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Silas Correa Leite – Santa Itararé das Artes, SP, Brasil
E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net
Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design, SC

Saturday, January 30, 2010

Romance Dois Irmãos de Milton Hatoum, Resenha Crítica de Silas Correa Leite

Pequena Resenha Crítica


“ZANA”, A Melhor Mãe da Literatura Brasileira
(Romance “Dois Irmãos” de Milton Hatoum)



“Ficção é perder o olho(...)”

Colum McCann





Quando você acaba de ler o belíssimo romance “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, Editora Companhia de Bolso, além de você se encontrar em júbilo com a qualidade da obra, ficar com gosto de quero mais no paladar aguçado, ainda sai da leitura encorpado com o tamanho volume da Mãe dos dois irmãos que são elevados e revelados em todos os sentidos pela proposta do livro-obra, um clássico da literatura brasileira contemporânea. Sim, contundentes, paradoxais, Yaqub e Omar saltam aos olhos, mas, e a bendita (maldita?) Mãe?

A Mãe ZANA dos meninos no palco de Manaus, é, certamente, a melhor mãe retratada no historial da literatura brasileira como um todo. Retratando os dois irmãos em contundências e agonias, revelando-os de alto a baixo, na fluente narrativa cativadora e de qualidade, o autor está se nos apresentando página por página a mãe ZANA que gerou os gêmeos, a mãe que os amou, que os estragou e por assim dizer na criação fundou a tragédia continuada da familia até o fim.

Sim, Milton Hatoum soberbo na linguagem e retratando um lar, na mãe disparou consubstancialmente o foco (triste), o eixo (duro), o centro (amargurado), retratando olhares, afetos, resignações, buscas e perdas em cada filhote que de si mesmo por assim dizer eram uma continuação dos lados ambíguos dela. Já pensou?

“Meu querido, meus olhos, minha vida”, diz Zana chorando, logo às páginas 13 do romance. Para Yaqub, o gêmeo que se ausentara no Líbano, capricho de Halim e dela mesma no desdizer. Lembranças e pesadelos de um mundo imponderável. Literalmente a mãe entre a cruz e a espada, dose dupla de si mesma, pendendo mais para o Caçula, o atinado, o atrevido, o atirado, vendo as coisas de cima de sua pose, o louco e vaidoso. Quem pariu que embalasse? Vá saber. Quem tem mãe não tem medo, disse Henfil. Mas uma mãe como Zana é uma loucura.

Yaqub de uma coragem escondida, recalcada, acalcada pela tendência da mãe pelo perdido. Mães sabem o que criam. E ajudam a alimentar o monstro de cada ego, cada resignação-toleima, dando corda e calço, literalmente embalando. Só as mães são felizes, cantou Cazuza, ele mesmo um Omar em verso, prosa e música. Quase um pierrô retrocesso.

Como uma fábula pós-moderna da história bíblica de Abel e Caim, com peculiaridades boas e ruins de um lado e de outro, de algum modo sem o desfecho exatamente fatal mas o próprio tácito fatalismo em si corroendo imagens e engrenagens íntimas, entrecortando toda a história muito belamente estruturada em narrativa cativadora e fluente na contação densa, que, por isso mesmo, também virou um dos mais belos romances da literatura brasileira, que traz a Mãe “Zana” como a melhor matriarca-matrona (não necessariamente megera) da própria literatura como um todo.

“Uma saga iluminada e profundamente emocionante” diz Alberto Manguel, in, The Independent, do livro Dois Irmãos, ambientado na urbanidade amazônica em tempos de guerra mundial, depois da ditadura nos bastidores em pinceladas estimativas, o amor e o ódio degladiando no meio de um mesmo sangue e circulo vicioso familiar, Yaqub e Omar, cicatrizes e sombras – e a superprotetora Mãe Zana, naquele que já é considerado por muitos críticos como o melhor romance brasileiro dos quinze últimos anos. O Século XXX sangra desde logo.

Yaqub, casulo de si mesmo borboleteando futuras intenções, ovelha perdida, boto rosa, pássaro ferido, montanhês rústico, aqui e ali apreensivo, derrotado. Silencial. Um falso-covarde com guardadas intenções maquiavélicas? O caçula e cínico Omar com escárnio e o mesmo sangue nas mãos. Lobo de si mesmo. Um personagem e tanto para as ponderações de Freud. Já pensou? A mesma carne em trincheiras opostas. O caçula e cara e a coragem da mãe. Yaqub sem nenhum papo-aranha, acanhado, desconfiado. Ódio, ciúme, e o zelo exagerado de Zana dando o tom às vezes descolorido das relações em conflito. Supermãe às vezes dá nisso. Não sabe nunca de que lado está, mesmo tendo escolhido um. Yaqub: “Cabeça e inteligência, isso ele tem de sobra”, diz Zana, a Mãe. Matematicamente introspectivo. Solidão-cangalha.

Omar com suas diabruras era da pá virada, aprontando todas, lunático, sexista, vivendo com emoção, a juventude em viço, as serenatas que enchiam de luzes as cativadoras noites de Manaus. Céu e inferno em si mesmo, o radical em choque e enfrentações. Audácias juvenis. Transgressor. As ressacas das noites de prazer. A busca de si nas transgressões de tudo e de todos, zelo excessivo, mimo doentio da genitora que via no escolhido a morte eminente. E Zana dando o aval de alguma maneira, custeando-o.

Zana impávida, colossal, serenidade fingida, a Mãe e os ímpetos das imprudências. Depois ambos no Galinheiro dos Vândalos, que os igualou. Mas a mãe sempre sabe onde a porca torce o rabo. Pelo menos Zana protegia o atrevido e censurava o certinho. Orgulho e fé. A carnadura do casal ali expropriando esperanças e amarguras... Ruminando situações que tentava apaziguar. Yaqub: “A mãe, com o olhar maravilhado, não sabia se mirava o filho ou a imagem dele”. Espelhos revisitados alimentam neuras. O abismo mais temível estava em casa, diz o autor, às páginas 33. Halim não podia evitar. Era um mero pião no jogo das aparências.

O narrador que se revela ao final, comenta: “Omar, mordido de ciúme, não tocou no nome do irmão. E a mãe, pura ânsia, dizia que o filho que parte pela segunda vez não volta nunca mais”(in, pg 35). Ora dando um enfoque criacional, ora saltando para uma outra ótica, sempre levando e trazendo contações, passados, futuros, implicações, o escritor vai iluminando atos do cenário em que a tragédia ainda está pertinente, parada no ar mas nunca vaza, nem escoa radicalmente. O leitor é que vai antevendo, costurando na cabeça as linhas de raciocínio, daquilo que Milton Hatoum faz que revela mas cabe ao apreciador de boa escrita ter sua própria “leitura”. Não há leitura inocente, nem escrita inocente. O que passou é prólogo, diz Shakespeare. Jorge Luis Borges dizia que a raiz da linguagem é irracional e de caráter mágico...

Yaqub, o tempo servido no Líbano e o que lá sofreu, permanece um ponto de interrogação no romance todo. Pairando sobre aparências e relações familiares conturbadas de lado a lado. A eternidade pode estar no que se cala. Histórias que se cruzam, vidas em trânsito, vaivém de núcleos de abandonos, águas como lembranças remotas que saem e chegam, o remo da palavra ornando a embarcação do livro em contracorrentes. O leitor navegando a alma nau de cada personagem. O autor mascateando parágrafos para seduzir o leitor pelo prazer da leitura. Zana, sempre em intimidade com os filhos, uma teimosia de tocar, proteger, talvez desconfiguar a personalidade de um e de outro, aqui e ali errando mão, rumos e entendimentos. Talvez cega de tanto ver?.

“Zana mandava e desmandava na casa, na empregada, nos filhos. Ele (Halim, o marido, o pai), paciência de Jó apaixonado e ardente, aceitava, engolia cobras e lagartos, sempre fazendo as vontades dela (Zana) (...), mimando-a, tocando o alaúde só para ela, como costumava dizer”( pg 41). Milton Hatoum tem poesia nas veias narrativas; em todo o transcorrer do livro há janelas de poesia, pura prosa poética. Achados. As coisas não têm alma, nem carne? Todos foram vítimas de Zana. Parece que o diabo torce para que uma mãe escolha um filho. Talvez Deus por outro lado desperte um lado de certo instinto selvagem na mãe, a natureza-mãe, para que proteja o que parece forte mas é só um ponto de fuga... Será o impossível?

O autor Milton Hatoum pincelando as chagas e as luzes da mãe. Prismas. “O filho de Halim (pai): forte, viril com todas, mas com a mãe se desmanchava em chamegos ou tremia como taquara verde. Vá entender o poder de uma mãe. Daquela Zana(...) Quando o destino de um filho está em jogo, nenhum detetive do mundo consegue mais pistas do que uma mãe”(pg. 104)”. Caçada de mãe é tempestade (pg. 110). No fundo Omar era cúmplice de sua própria fraqueza, de uma escolha mais poderosa do que ele; ele não podia muito contra a decisão da mãe, para quem parecia dever uma boa parte de sua vida e de seus sentimentos(...). Tentou se conformar com essa frustração que ele supunha pacificadora, e nunca mais ousou entregar-se mulher nenhuma(...)”

A Mãe Zana que queria paz mas sem querer fomentava o embate. A construção insabidamente desconstruída. As mães bem sabem onde põem a alma, o coração, as mãos. Mas o instinto protecional exacerbado pode criar infernos em clãs. As desgraças todas da história acontecem por amor (demais, aloprado) e em familia. Milton Hatoum soube colocar a mãe no meio; nos meandros historiais, com música, harmonia e ritmo num romance cheia de enlevo. Acertou na Mãe também. “Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos” (Milton Hatoum, pg 196). Leia o livro e se sinta em casa. Êpa, quero dizer, sinta-se humamente dentro de você mesmo. Talvez, na verdade, ao contrário do que diz o rock do Cazuza, só as mãe são perfeitamente infelizes com o que afinal sangraram como filhotes de suas próprias amarguras.

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Silas Correa Leite, Santa Itararé das Artes, São Paulo, Brasil – Jornalista Comunitário, Especialista em Educação, Conselheiro em Direitos Humanos (SP)
Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, 2009, Salvador Bahia, Giz Editorial
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